4 de abril de 2009

Dia Branco


Quando era criança, aquele dia deveria ser cor-de-rosa. Nos desenhos do caderno da escola seria céu azul, sol com sorriso amarelo, nuvens de cantos arrendados. As flores pareciam bonequinhas. E a bonequinha era feita de linhas finas como palitos de dentes. Naquele tempo, o desenho era rascunho fácil. Brincadeira da aula de artes, cenário do enfeite das festas de brigadeiro e música da Xuxa. Pintura de quem só via o colorido das coisas. Outro dia, fui desenhar novamente. O rascunho do mundo que eu via. As cores deveriam ser mais secundárias ou terciárias, os cantos melhor definidos. Não eram. Estavam ali a boneca de palito de dente, o sol sorrindo com raios amarelos e as flores bonequinhas.


Desenhe o coração dos seus sete anos de idade. Desenhe-o novamente agora, aos 18, aos 20, aos 26, semana passada, ontem. Mudou? No meu só a cor mudou. Era rosa, do mundo cor-de-rosa, do fundo vermelho. Agora é branco. Como o dia branco da música do Alceu. Branco. Sem contorno, branco pela limpeza que algumas águas visionárias provocam. Branco pela reunião de todas as cores. Branco pela paz de reconhecer que a preocupação é desnecessária, porque o destino sempre cumpre seu papel. E talvez, só talvez, os traços do papel nunca mudaram porque a mão que o fez era regada de vontade e não de medo. Conjunção que resulta naquilo que alguns chamam de coragem. Expansivo, vivo!


Um dia como aquele. Como aquele dia do desenho. Dia desenhado na mente da criança que quase afirma que não cresceu só porque acha que não aprendeu a desenhar. Ou dia do desenho eterno, que não muda com o tempo. Aquarela do futuro, da escolha de onde estar, de como ser. Da certeza dos sonhos que não morrem. Do caminho percorrido de sandália rasteirinha, pelas linhas tortas, mas com vitória na chegada.


O dia vira noite, as estrelas parecem brancas perto da escuridão do céu. Nem toda lua cheia é amarela, nem toda correta distância entre dois tempos é uma reta. Mas a boneca ainda é feita de linhas de palito de dente. O sol ainda sorri amarelo e o céu tem um tamanho maior do que apenas o terreno dos anjos bons. Certas coisas nunca mudam. Ainda bem.

17 comentários:

julio de castro disse...

ah, mas a árvore guarda, atrás das linhas simples, toda uma sofisticação na composição.

mil coisas, srta. morena incomparável.

Suzi disse...

às vezes sei que cresci porque quase afirmo que descreditei em sonhos que não morrem...

Tataahzinha disse...

Oiiii! Meu blog mudou!
Agora é esse aqui: www.peripeciasdatatah.blogspot.com

Obrigada a todos que NUNCA me abandonaram e estiveram do meu lado mesmo depois do meu afastamento!
Quem me acompanhava, peço que acompanhem no outro e saiam do antigo tá?

e agora.. VAMO QUE VAMOOO que eu to de volta!
beeeijo

Flor disse...

Meu coração é transparente, e só se fode por isso.Está vazio também. Ele me frusta.

Beijo grande.
Ps: Belíssimo escrito.

Ana D disse...

Tomeio nostálgica..rsrs E este texto...rs

Luciana Andrade disse...

Concordo com você.. Algumas coisas, arriscaria a dizer, as mais importantes ficam!

Da Silva disse...

Que bom qua inda conseguimos sonhar com céus azuis e femílias sorridentes, como em nossos desenhos de criança.

E, para nossa sorte, estamos desenhando um pouquinho melhor.

bjs para a jovem escritora mais promissora que eu tenho lido na Internet.

meus instantes e momentos disse...

Sempre muito bom voltar ao teu blog, gosto daqui.
Tenha uma bela Páscoa.
Maurizio

Patrícia Lage disse...

Dos desenhos que fiz na infancia, lembro-me bem quando retratei o cajueiro do quintal. Ah, cajueiro... Os meus sonhos sonhados lá, tantos ainda aqui.

Lindo texto!
Meu beijo.

Suzi disse...

volta lá pra ler os comentários depois do seu, perdidinha!
:o)

Luciana Andrade disse...

Flor, conheci Lala agora falta você!
Beijos meus

Di disse...

Eu desenhava bonitnho quando era criança, hoje em dia nem casinha sai bonitinha...rs

Ah, linda mostra sua letra sim. Quero muiiiiito ler um manuscristo teu aqui. ;)

Fica bem, viu?

beijos!

garotabossanova disse...

Pois é,tem coisas que por mais que o tempo passa não mudam,taí o teu desenho pra comprovar.Na simplicidade dos traços a firmeza dos sonhos.Um beijo!

Oliver Pickwick disse...

Esta é uma crônica típica do estilo reflexões sem dor, onde você compartilha como você mesma, sem melancolias, dias azuis, amarelos, cor-de-rosa e brancos.
Aposto que escreveu de uma só vez, sem muitas lucubrações, sorrindo para o monitor e sequer usou a tecla backspace.
Continuo fã do seu estilo de navegar.
Um beijo!

Janaina disse...

A gente não pode crescer muito não. Sabe?
E os olhos com águas... eu me identifico tanto, tanto. Você sabe né?

Alexandre Gil disse...

o negócio é não racionalizar de mais.

Desenhar como criança é desenhar sem: Análise Crítica

Sabe: nao conheço nenhum cara com QI baixa q tenha depressao,... entao vamos seguir os QI´s baixos e as crianças e nao nos importar mto com o q SOMOS!

JOSÉ ALBERTO MAR disse...

O texto! Valeu

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