Este fevereiro azul. Como a chama da paixão. Nascido com a morte certa. Com prevista duração. Deflagra suas manhãs. Sobre as montanhas e o mar. Com o desatino de tudo. Que está para se acabar.
A carne de fevereiro. Tem o sabor suicida. De coisa que está vivendo. Vivendo mas já perdida. Mas como tudo que vive. Não desiste de viver, fevereiro não desiste: vai morrer, não quer morrer.
E a luta da resistência. Se trava em todo lugar: por cima dos edifícios, por sobre as águas do mar. O vento que empurra a tarde. Arrasta a fera ferida, rasga-lhe o corpo de nuvens. dessangra-a sobre a Avenida
Vieira Souto e o Arpoador. Numa ampla hemorragia. Suja de sangue as montanhas. Tinge as águas da baía. E nesse esquartejamento a que outros chamam verão, fevereiro ainda em agonia resiste mordendo o chão. Sim, fevereiro resiste. Como uma fera ferida. É essa esperança doida. Que é o próprio nome da vida. 6-6-1932 + 13-6-2009
Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração - resiste.
(Verão - Ferreira Gullar)