19 de abril de 2009

A minha gratidão

A minha gratidão tem corpo debilitado e algumas rugas na face. Tem os cabelos desbotados pela falha da tinta que não foi pintada no último mês. Conhecemos-nos há anos, e no começo eu que era a gratidão dele; o mundo dele; o amor e o cuidado dele; o medo e o orgulho dele. Aquela gratidão foi crescendo ali, sem pedir licença nem perguntando "como" e "por que". Era para ser, razão de existir.
Quando nos conhecemos, ele já estava pra lá dos 40 anos. Aliás, já estava para mais dos 50. Revertendo expectativas daqueles que têm mente pequena e coração ferido, ele decidiu ser pai. E sendo pai me ganhou, me escolheu sem saber como seria, mas desejando que fosse. Que eu fosse alguém independente dele, que o amasse muito, que assistisse o jornal nacional e o horário eleitoral gratuito com ele todas as noites.
Ele quis coisas que não conseguiu, como que eu não me decepcionasse quando percebi que ele gostava de beber, que eu nunca chorasse por um homem que não me merecesse, que a vida nunca me desse uma rasteira, que eu fosse mais compreensiva com as falhas dele e com as minhas também.
Entre as coisas que quisemos e não conseguimos obter um do outro, percebemos que no meio das faltas e das falhas sobrou espaço para os acertos que o amor provoca. Mesmo sem nunca exigir nada em troca nos fizemos amáveis um para o outro. Cada dia, mais um dia, mais uma briga ou mais uma conversa gostosa na varanda. Um presente inesperado ou um esporro necessário. Nos completávamos assim.
Ele nunca levantou a mão pra mim, não me chamou a atenção na frente dos outros ou deixou faltar qualquer coisa dentro de casa. Não aprovou muitas das minhas escolhas, mas sempre ficou ali, observando de longe.
Do meu lado, nunca deixei que falassem mal dele perto de mim, e, de uma forma ou de outra, nunca tirei do meu norte não ser a pessoa que ele não gostaria que eu fosse. Não aprovei muitas de suas atitudes, mas não deixei que tirassem de dentro de mim a escolha de amá-lo incondicionalmente.
Ele perdeu a mãe quando eu já havia nascido, perdeu a única irmã há pouco mais de dois anos. Eu o ganhei de presente quando já tinham programado que eu viria ao mundo mesmo sem saber quem cuidaria de mim. Ganhei dois irmãos, uma mãe e uma família inteira no pacote.
E ele cuidou tão bem da gratidão dele. Defendeu, alimentou e valorizou como se tivesse descoberto um tesouro escondido no fundo do armário. Exibiu, adorou e admirou como se ganhasse um troféu de cabelos crespos e pele morena. Apostou e almejou como se necessitasse de um prêmio da loteria.
Nos últimos dias, fizemos um trato silencioso. Sem pedir, ou sem pensar que um dia aquilo poderia acontecer, mas por necessidades do coração e da dor, trocamos de lugar. Ali, naquele quarto de parede azul e com uma televisão que não funciona, virei a mãe e ele o filho.
O meu filho atende quando o chamo de pai. Durante a noite acorda precisando de cuidados. Dos mesmos cuidados que recebi dele quando os papéis familiares estavam na ordem natural. Das coisas que me ensinou, repasso à minha mente e às minhas mãos o dever de banhá-lo, de trocar sua fralda, vesti-lo, escovar seus dentes e alimentá-lo. Prestar atenção no horário dos remédios...
...Segurar as mãos dele, assim como ele fez quando precisava me ensinar a atravessar a rua ou andar de bicicleta. E eu choro por ele, como ele chorou comigo toda vez que ralei meus joelhos no asfalto ou tive febre alta causada pela amigdalite.
O meu pai, o meu espelho, o meu bebê tem me ensinado a chorar gritando baixo sozinha no quarto, a implorar aos céus que tudo dê certo, e que neste teste nós dois passemos com nota máxima. Sem pedido prévio, está me ensinando a ser mãe, a abandonar o sono pesado para velar o dele.
Tem me feito perceber que voltaremos ao pó, que só amor de pai e mãe transcende qualquer barreira física. E me ensinado a agradecer por todo aquele bem que já sabia que a vida havia me dado de graça quando abri os olhos para o mundo.
Quero que ele volte pra casa. Curado. Que tudo isso seja apenas um susto. Quero tomar um copo de vinho com ele e assistir o noticiário. Enquanto não pudermos fazer isso, vou aqui de um jeito ou de outro, com os olhos abertos demais, enxergando muita coisa dolorida, com o rosto ardendo de tanta lágrima, com o desabafo de quem está tremendo de medo e congelando de incompetência, com as risadas raras cada vez que dou cada vez que ele reage com esperança. E com a gratidão se estendendo aos amigos que estão por perto, mesmo de longe, em oração. Quero poder ser filha e que ele volte a ser meu pai.

4 de abril de 2009

Dia Branco


Quando era criança, aquele dia deveria ser cor-de-rosa. Nos desenhos do caderno da escola seria céu azul, sol com sorriso amarelo, nuvens de cantos arrendados. As flores pareciam bonequinhas. E a bonequinha era feita de linhas finas como palitos de dentes. Naquele tempo, o desenho era rascunho fácil. Brincadeira da aula de artes, cenário do enfeite das festas de brigadeiro e música da Xuxa. Pintura de quem só via o colorido das coisas. Outro dia, fui desenhar novamente. O rascunho do mundo que eu via. As cores deveriam ser mais secundárias ou terciárias, os cantos melhor definidos. Não eram. Estavam ali a boneca de palito de dente, o sol sorrindo com raios amarelos e as flores bonequinhas.


Desenhe o coração dos seus sete anos de idade. Desenhe-o novamente agora, aos 18, aos 20, aos 26, semana passada, ontem. Mudou? No meu só a cor mudou. Era rosa, do mundo cor-de-rosa, do fundo vermelho. Agora é branco. Como o dia branco da música do Alceu. Branco. Sem contorno, branco pela limpeza que algumas águas visionárias provocam. Branco pela reunião de todas as cores. Branco pela paz de reconhecer que a preocupação é desnecessária, porque o destino sempre cumpre seu papel. E talvez, só talvez, os traços do papel nunca mudaram porque a mão que o fez era regada de vontade e não de medo. Conjunção que resulta naquilo que alguns chamam de coragem. Expansivo, vivo!


Um dia como aquele. Como aquele dia do desenho. Dia desenhado na mente da criança que quase afirma que não cresceu só porque acha que não aprendeu a desenhar. Ou dia do desenho eterno, que não muda com o tempo. Aquarela do futuro, da escolha de onde estar, de como ser. Da certeza dos sonhos que não morrem. Do caminho percorrido de sandália rasteirinha, pelas linhas tortas, mas com vitória na chegada.


O dia vira noite, as estrelas parecem brancas perto da escuridão do céu. Nem toda lua cheia é amarela, nem toda correta distância entre dois tempos é uma reta. Mas a boneca ainda é feita de linhas de palito de dente. O sol ainda sorri amarelo e o céu tem um tamanho maior do que apenas o terreno dos anjos bons. Certas coisas nunca mudam. Ainda bem.

21 de março de 2009

Pedidinho

O blog faz niver dia 1 de abril

Eu quero uma template nova

Só que não sei desenhar templates

Logo, peço aos meus queridos que ajudem-me

Algúem me
dá uma
template nova
de presente?

Please...Please...!

13 de março de 2009

Frio estranho


Tenho sentido um frio estranho. De tomar banho morno antes de dormir. De colocar o vento no sentido contrário da força.

Tenho sentido um frio estranho. De colocar calças em vez de saias e vestidos. De quase não suar. De dormir úmida para me sentir quente.

Tenho sentido um frio estranho. De dar vontade de ler livro ganhado. De usar calcinha branca feito neve. De buscar aquecimento em novas perspectivas.

O meu frio é estranho por ter chegado sem rosto e sem corpo no meio deste calorão da cidade purgatório da beleza e do caos. Chegou com cheiro de chocolate quente e gosto de salada de alface, que eu não conheço o sabor.

Tenho sentido um frio que escreve letras tortas no diário, apenas iluminada pela luz da TV. O meu frio começou a ler poesia, tem desejo de cantar cena de filme com música do Elton John.

Meu frio veio depois de uma forte febre que me derrubou numa cama grande demais para meu corpo fervente, encolhido de frio e de suor debaixo do endredon.

O meu frio veio para ensinar a liberdade do não, quando usado para evitar os excessos desnecessários. Dizer não para a pequenas coisas que nos queimam a cabeça sem razão de ser chama é deixar espaço para ter a mente com a leveza de brisa.

Meu trincar de lábios aprendeu que meu sorriso é ouro em pó e só merece ser doado aos que aquecem a alma e nos enchem o coração de carinho sabor mingau de chocolate com canela.

o meu frio invadiu o verão, antecipou as águas de março, que levaram a correnteza do bueiro, as dores, os vícios e as neuroses. Este frio me deixou o básico-essencial, descortinou o supérfluo, o vencido e o podre.

Veio carregado, congelou com a neve, lavou com a chuva e me deixou ali...

...Folha verde hidratada. Bonança depois da tempestade

5 de março de 2009

Pai



Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão

(De onde vem a calma? - Los Hermanos)

9 de fevereiro de 2009

Shame


Vergonha é uma sensação em desuso. Já me disseram. Mas para meus sentidos isso pouco adianta. Sinto toda vez que meus atos carinhosos são mal-interpretados e sempre que a ansiedade julga os atos dos outros com olhos de veneno. Minha vergonha é sem educação. Aparece quando menos imagino. Visita sem ser convidada. Exatamente na hora que o corpo percebe que ainda deseja quem não fez por merecer meu tesão.

De vez em quando, a guerra é feia, ela se traveste de ansiedade e desfila suntuosa pela escada rolante da minha verborragia. Não há muro de proteção que segure. É um tal de palavra errada na hora errada...É como cair da cadeira mesmo permanecendo sentada. Uma sensação de estar flutuando sem rede de proteção.

Quem me dera minha vergonha fosse discreta e se conformasse apenas com o rubor da minha face. Mais do que isso, ela tropeça, descarrega, grita, chora...E mimadinha que só, se arrepende depois.

Vergonha é uma pombagira que incorpora em mim para lembrar que o sangue não é de barata. Então é melhor cuidar do nível de entrega, porque a mocinha aqui não vai sobreviver a Bomba de Hiroshima. O tal do sentimento estranho chega quando a adaptação foi dar uma volta por terras distantes. E ai, lembramos que esquecemos de disfarçar o incomodo quando o carinha de dois dias atrás de repente, simplesmente, cisma de não querer.

Vergonha é aquela coisa inquietante, que te lembra que os outros estão de olho; lembra da promessa de dar orgulho aos seus pais e ao seu analista e que orou antes de dormir prometendo ser uma pessoa equilibrada e serena. E a tentativa quase sempre falha.

Nestas horas, onde a culpa é maior do que o prazer pode ser melhor mandar a vergonha ir pastar em outros corpos e te dar o direito de se mostrar incomodada. Mas sabe como é, ser frágil é ser fraco. Será? Se ter vergonha é ter recato, ser uma sem-vergonha devia ser a glória humana.

É bom não ter vergonha de ser honesto consigo mesmo. Nem pensar duas vezes antes de dizer para o outro: É me senti ferida, sim! É bom não ter vergonha para sussurrar eu te amo no ouvido da mãe, do irmão, do pai, ou do sexo masculino da vez. Bom ser sem-vergonha de recomeçar, de se mostrar humano, de errar e pedir desculpas.

A gente erra tentando acertar; prejudica tentando ajudar; machuca querendo consolar. E por aí, vai. A graça mesmo é ser sem vergonha. Despudorada, jogada na vida, como quem espera apenas o alento do próximo doce ou a saliva quente do próximo beijo.

A falta de vergonha, para nós meros mortais que só queremos comida, diversão e arte, deveria vir no manual de instruções de todo ser que se permite apenas ser...Ou talvez estar, quando lhe for mais conveniente. Quem sabe nem uma coisa, nem outra?

Só que a vergonha chega sempre sem ser evocada. E quando a minha vem, quase me sinto culpada por aquela conversa no domingo, por ter deixado claro minha chateação, por não ter tido os beijos que queria. Ter vergonha, na verdade, seria ter me comportado bem naquele sábado (Isso seria esperteza). Não ter vergonha foi ter ficado tonta com o verde dos olhos alheios.

E hoje, e talvez amanhã e depois, ainda no refluxo destes atos, acho que é melhor usar meu salto mais alto e mandar a vergonha ir $%#@&¨$%. Tudo com muita classe. Afinal, sou uma moça comportada.

3 de fevereiro de 2009

Depois daquele sábado

E até eu...

que sempre fui meio Polyana...

Já estou cansada de tanto acreditar...

E começo a me conformar a viver sem esperança...

(Eu vou voltar com um texto inteiro. Prometo)

Siga esta onda

Related Posts with Thumbnails

Siga esta onda

Related Posts with Thumbnails